Tema do blog



Embora minha principal intenção seja publicar material relativo à literatura e ao cinema fantásticos, o blog poderá apresentar também materiais de cunho diversos, alguns dos quais acho interessantes de uma forma geral, portanto não estranhem se encontrarem algo fora do tema principal.
Se ao menos uma pequena parte que seja do conteúdo do blog contribuir, de alguma forma, para a divulgação das múltiplas e ricas facetas da literatura fantástica, de horror ou sobrenatural, o blog terá cumprido seu principal propósito.


domingo, 27 de dezembro de 2015

Edgar Allan Poe - O barril de amontillado

Este é o conto original de Poe que deu origem ao quadrinho que acabei de postar. O tema central (vingança) aqui é recorrente na literatura do escritor, tudo caminha para culminar em um golpe final fatal, a ousadia, a pretensão, a superioridade, que Fortunato demonstra possuir de forma arrogante nos faz desejar cada vez mais pelo desfecho inexorável da história.
  
O barril de amontillado 


Suportei o melhor que pude as injúrias de Fortunato; mas, quando ousou insultar-me, jurei vingança. Vós, que tão bem conheceis a natureza de meu caráter, não havereis de supor, no entanto, que eu tenha proferido qualquer ameaça. No fim, eu seria vingado. Este era um ponto definitivamente assentado, mas a própria decisão com que eu assim decidira excluía qualquer idéia de perigo. Assim devia apenas castigar, mas castigar impunemente. Uma injúria permanece irreparada, quando o castigo alcança aquele que se vinga. Permanece, igualmente, sem reparado, quando o vingador deixa de fazer com que aquele que o ofendeu compreenda que e ele quem se vinga. 

   É preciso que se saiba que, nem por meio de palavras, nem de qualquer ato, dei a Fortunato motivo para que duvidasse de minha boa vontade. Continuei, como de costume, a sorrir em sua presença, e ele não percebia que o meu sorriso, agora, tinha como origem a idéia da sua imolação.

   Esse tal Fortunato tinha um ponto fraco, embora, sob outros aspectos, fosse um homem digno de ser respeitado e, até mesmo, temido. Vangloriava-se sempre de ser entendido em vinhos. Poucos italianos possuem verdadeiro talento para isso. Na maioria das vezes, seu entusiasmo se adapta aquilo que a ocasião e a oportunidade exigem, tendo em vista enganar os milionários ingleses e austríacos. Em pintura e pedras preciosas, Fortunado, como todos os seus compatriotas, era um intrujão; mas, com respeito a vinhos antigos, era sincero. Sob este aspecto, não havia grande diferença entre nós - pois que eu também era hábil conhecedor de vinhos italianos, comprando-os sempre em grande quantidade, sempre que podia. Uma tarde, quase ao anoitecer, em plena loucura do carnaval, encontrei o meu amigo. Acolheu-me com excessiva cordialidade, pois que havia bebido muito. Usava um traje de truão, muito justo e listrado, tendo à cabeça um chapéu cônico, guarnecido de gizos. Fiquei tão contente de encontra-lo, que julguei que jamais estreitaria a sua mão como naquele momento. - Meu caro Fortunato - disse-lhe eu -, foi uma sorte encontrá-lo. Mas, que bom aspecto tem você hoje! Recebi um barril como sendo de Amontillado, mas tenho minhas duvidas. - Como? - disse ele. - Amontillado? Um barril? Impossível! E em pleno carnaval! - Tenho minhas duvidas - repeti - e seria tolo que o pagasse como sendo de Amontillado antes de consultá-lo sobre o assunto. Não conseguia encontrá-lo em parte alguma, e receava perder um bom negócio. - Amontillado! - Tenho minhas dúvidas. - Amontillado! - E preciso efetuar o pagamento. - Amontillado! - Mas, como você esta ocupado, irei a procura de Luchesi. Se existe alguém que conheça o assunto, esse alguém e ele. Ele me dirá . . . - Luchesi e incapaz de distinguir entre um Amontillado e um Xerez. - Não obstante, ha alguns imbecis que acham que o paladar de Luchesi pode competir com o seu. - Vamos, vamos embora. - Para onde? - Para as suas adegas. - Não, meu amigo. Não quero abusar de sua bondade. Penso que você deve ter algum compromisso. Luchesi. . . - Não tenho compromisso algum. Vamos. - Não, meu amigo. Embora você não tenha compromisso algum, vejo que esta com muito frio. E as adegas são insuportavelmente úmidas. Estão recobertas de salitre. Apesar de tudo, vamos. Não importa o frio. Amontillado! Você foi enganado. Quanto a Luchesi, não sabe distinguir entre Xerez e Amontillado.

   Assim falando, Fortunato tomou-me pelo braço. Pus uma máscara de seda negra e, envolvendo-me bem em meu roquelaire, deixei-me conduzir ao meu palazzo. Não havia nenhum criado em casa, pois que todos haviam saído para celebrar o carnaval. Eu lhes dissera que não regressaria antes da manhã seguinte, e lhes dera ordens estritas para que não arredassem pé da casa. Essas ordens eram suficientes, eu bem o sabia, para assegurai o seu desaparecimento imediato, tão logo eu lhes voltasse as costas. Tomei duas velas de seus candelabros e, dando uma a Fortunato, conduzi-o, curvado, através de uma seqüência de compartimentos, à passagem abobadada que levava à adega. Chegamos, por fim, aos últimos degraus e detivemo-nos sobre o solo úmido das catacumbas dos Montresor. 


    O andar de meu amigo era vacilante e os guizos de seu gorro retiniam a cada um de seus passos. - E o barril? - perguntou. - Está mais adiante - respondi. - Mas observe as brancas teias de aranha que brilham nas paredes dessas cavernas. Voltou-se para mim e olhou-me com suas nubladas pupilas, que destilavam as lágrimas da embriaguez. - Salitre? - perguntou, por fim. - Salitre - respondi. - Há quanto tempo você tem essa tosse? Meu pobre amigo pôs-se a tossir sem cessar e, durante muitos minutos, não lhe foi possível responder. - Não é nada - disse afinal. - Vamos - disse-lhe com decisão. - Vamos voltar. Sua saúde é preciosa. Você é rico, respeitado, admirado, amado; você é feliz, como eu também o era. Você é um homem cuja falta será sentida. Quanto a mim, não impor-ta. Vamos embora. Você ficará doente, e não quero arcar com essa responsabilidade. Além disso, posso procurar Luchesi . . . - Basta - exclamou ele. - Esta tosse não tem importância; não me matará. Não morrerei por causa de uma simples tosse. -É verdade, é verdade - respondi. - E eu, de fato, não tenho intenção alguma de alarmá-lo sem motivo. Mas você deve tomar precauções. Um gole deste Medoc nos defenderá da umidade. E, dizendo isto, parti o gargalo de uma garrafa que se achava numa longa fila de muitas outras iguais, sobre o chão úmido. - Beba - disse, oferecendo-lhe o vinho. Levou a garrafa aos lábios, olhando-me de soslaio. Fez uma pausa e saudou-me com familiaridade, enquanto seus guizos soavam. - Bebo - disse ele - à saúde dos que repousam enterrados, em torno de nós. - E eu para que você tenha vida longa. Tomou-me de novo o braço e prosseguimos. - Estas cavernas - disse-me - são extensas. - Os Montresor - respondi - formavam uma família grande e numerosa. - Esqueci qual o seu brasão. - Um grande pé de ouro, em campo azul. O pé esmaga uma serpente ameaçadora, cujas presas se acham cravadas no salto. - E a divisa? - Nemo me impune lacessit. - Muito bem! - exclamou. O vinho brilhava em seus olhos e os guizos retiniam. Minha própria imaginação se animou, devido ao Medoc. Através de paredes de ossos empilhados, entremeados de barris e tonéis, penetramos nos recintos mais profundos das catacumbas. Detive-me de novo e, essa vez, me atrevi a segurar Fortunato pelo braço, acima do cotovelo. - O salitre! - exclamei. - Veja como aumenta. Prende-se, como musgo, nas abóbadas. Estamos sob o leito do rio. As gotas de umidade filtram-se por entre os ossos. Vamos. Voltemos, antes que seja tarde demais. Sua tosse... - Não é nada - respondeu ele. - Prossigamos. Mas, antes, tomemos outro gole do Medoc. Parti o gargalo de uma garrafa de vinho De Grâve a dei-a a Fortunato. Ele a esvaziou de um trago. Seus olhos cintilaram com brilho ardente. Pôs-se a rir e atirou a garrafa para o ar, com gesticulação que não compreendi. Olhei-o, surpreso. Repetiu o movimento, um movimento grotesco. - Você não compreende? - perguntou. - Não, não compreendo - respondi. - Então é porque você não pertence à irmandade. - Como? - Não pertence à maçonaria. - Sim, sim. Pertenço. - Você? Impossível! Um maçom? - Um maçom - respondi. - Prove-o - disse ele. - Eis aqui - respondi, tirando de debaixo das dobras de meu roquelaire uma colher de pedreiro. - Você está gracejando! - exclamou recuando alguns passos. - Mas prossigamos: vamos ao Amontillado. - Está bem - disse eu, guardando outra vez a ferramenta debaixo da capa e oferecendo-lhe o braço. Apoiou-se pesadamente em mim. Continuamos nosso caminho, em busca do Amontillado. Passamos através de uma série de baixas abóbadas, descemos, avançamos ainda, tornamos a descer e chegamos, afinal, a uma profunda cripta, cujo ar, rarefeito, fazia com que nossas velas bruxuleassem, ao invés de arder normalmente. 


   Na extremidade mais distante da cripta aparecia uma outra, menos espaçosa. Despojos humanos empilhavam-se ao longo de seus muros, até o alto das abóbadas, à maneira das grandes catacumbas de Paris. Três dos lados dessa cripta eram ainda adornados dessa maneira. Do quarto, os ossos haviam sido retirados e jaziam espalhados pelo chão, formando, num dos cantos, um monte de certa altura. Dentro da parede, que, com a remoção dos ossos, ficara exposta, via-se ainda outra cripta ou recinto interior, de uns quatro pés de profundidade, três de largura e seis ou sete de altura. Não parecia haver sido construída para qualquer uso determinado, mas constituir apenas um intervalo entre os dois enormes pilares que sustinham a cúpula das catacumbas, tendo por fundo uma das paredes circundantes de sólido granito.
   Foi em vão que Fortunato, erguendo sua vela bruxuleante, procurou divisar a profundidade daquele recinto. A luz, fraca, não nos permitia ver o fundo. - Continue - disse-lhe eu. - O Amontillado está aí dentro. Quanto a Luchesi .. . . - É um ignorante - interrompeu o meu amigo, enquanto avançava com passo vacilante, seguido imediatamente por mim. 


   Num momento, chegou ao fundo do nicho e, vendo 0 caminho interrompido pela rocha, deteve-se, estupidamente perplexo. Um momento após, eu já o havia acorrentado ao granito, pois que, em sua superfície, havia duas argolas de ferro, separadas uma da outra, horizontalmente, por um espaço de cerca de dois pés. De uma delas pendia uma corrente; da outra, um cadeado. Lançar a corrente em torno de sua cintura, para prendê-lo, foi coisa de segundos. Ele estava demasiado atônito para oferecer qualquer resistência. Retirando a chave, recuei alguns passos. - Passe a mão pela parede - disse-lhe eu. - Não poderá deixar de sentir o salitre. Está, com efeito, muito úmida. Permita-me, ainda uma vez, que lhe implore para voltar. Não? Então, positivamente, tenho de deixá-lo. Mas, primeiro, devo prestar-lhe todos os pequenos obséquios ao meu alcance. - O Amontillado! - exclamou o meu amigo, que ainda não se refizera de seu assombro. - É verdade - respondi -, o Amontillado.


    E, dizendo essas palavras, pus-me a trabalhar entre a pilha de ossos a que já me referi. Jogando-os para o lado, deparei logo com uma certa quantidade de pedras de construção e argamassa. Com este material e com a ajuda de minha colher de pedreiro, comecei ativamente a tapar a entrada do nicho. Mal assentara a primeira fileira de minha obra de pedreiro, quando descobri que a embriaguez de Fortunato havia, em grande parte, se dissipado. O primeiro indício que tive disso foi um lamentoso grito, vindo do fundo do nicho. Não era o grito de um homem embriagado. Depois, houve um longo e obstinado silêncio. Coloquei a segunda, a terceira e a quarta fileiras. Ouvi, então, as furiosas sacudidas da corrente. O ruído prolongou-se por alguns minutos, durante os quais, para deleitar-me com ele, interrompi o meu trabalho e sentei-me sobre os ossos. Quando, por fim, o ruído cessou, apanhei de novo a colher de pedreiro e acabei de colocar, sem interrupção, a quinta, a sexta e a sétima fileiras. A parede me chegava, agora, até a altura do peito. Fiz uma nova pausa e, segurando a vela por cima da obra que havia executado, dirigi a fraca luz sobre a figura que se achava no interior. 


    Uma sucessão de gritos altos e agudos irrompeu, de repente, da garganta do vulto acorrentado, e pareceu impelir-me violentamente para trás. Durante breve instante, hesitei... tremi. Saquei de minha espada e pus-me a desferir golpes no interior do nicho; mas um momento de reflexão bastou para tranqüilizar-me. Coloquei a mão sobre a parede maciça da catacumba e senti-me satisfeito. Tornei a aproximar-me da parede e respondi aos gritos daquele que clamava. Repeti-os, acompanhei-os e os venci em volume e em força. Fiz isso, e o que gritava acabou por silenciar. 


    Já era meia-noite, a minha tarefa chegava ao fim. Completara a oitava, a nona e a décima fileiras. Havia terminado quase toda a décima primeira - e restava apenas uma pedra a ser colocada e rebocada em seu lugar. Ergui-a com grande esforço, pois que pesava muito, e coloquei-a, em parte, na posição a que se destinava. Mas, então, saiu do nicho um riso abafado que me pôs os cabelos em pé. Seguiu-se-lhe uma voz triste, que tive dificuldade em reconhecer como sendo a do nobre Fortunato. A voz dizia: - Ah! ah! ah! . . . eh! eh! eh! . . . Esta é uma boa piada... uma excelente piada! Vamos rir muito no palazzo por causa disso . . . ah! ah! ah! . . . por causa do nosso vinho... ah! ah! ah! - O Amontillado! - disse eu. - Ah! ah! ah! . . . sim, sim . . . o Amontillado. Mas não está ficando tarde? Não estarão nos esperando no palácio. . . a Sra. Fortunato e os outros? Vamos embora. - Sim - respondi -, vamos embora. - Pelo amor de Deus, Montresor! - Sim - respondi -, pelo amor de Deus! Mas esperei em vão qualquer resposta a estas palavras. Impacientei-me. Gritei, alto: - Fortunato! Nenhuma resposta. Tornei a gritar: - Fortunato! 


    Ainda agora, nenhuma resposta. Introduzi uma vela pelo orifício que restava e deixei-a cair dentro do nicho. Chegou até mim, como resposta, apenas um tilintar de guizos. Senti o coração opresso, sem dúvida devido à umidade das catacumbas. Apressei-me para terminar o meu trabalho. Com esforço, coloquei em seu lugar a última pedra - e cobri-a com argamassa. De encontro à nova parede, tornei a erguer a antiga muralha de ossos. Durante meio século, mortal algum os perturbou. In pace requiescat!

Edgar Allan Poe - O barril de Amontillado - Adaptação aos quadrinhos

Esta é mais uma das muitas adaptações que as histórias de Poe tiveram para os quadrinhos. Aqui a ação se passa em meio à celebração do Carnaval,  enquanto farra e bebida tomavam conta da superfície da cidade, em seus subterrâneos, nas mais recônditas catacumbas, um lúgubre episódio tinha lugar. Aqui podemos tomar nota também da magnífica arte de Reed Crandall no preto-e-branco que cria uma atmosfera perfeita para a história. Os scans foram retirados de minha coleção pessoal "Creepy - Contos clássicos de terror - Vol. 2, publicada em 2013 pelo dueto Devir/Dark Horse". Esta coleção em 3 edições reproduz algumas das histórias clássicas da antiga Creepy da EC (aqueles quadrinhos clássicos da década de 50 que vocês já conhecem: Eerie, Kripta, Creepy, etc.).
O único detalhe "negativo" da adaptação fica por conta do final que foi mudado,e para pior por sinal. Para os conhecedores de Poe, notarão que o conto dos escritor acaba de forma magistral como está representado na penúltima página do quadrinho, sendo a última um acréscimo inútil e lamentável, o que denota retira toda a genialidade do conto de Poe. Mas para que a adaptação na perca o brilho é só deixar a última página de fora.








quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Edgar Allan Poe - O gato preto - Adaptação aos quadrinhos

A seguir apresento uma adaptação para os quadrinhos do conto "O gato preto" de E. A. Poe, publicada na revista Creepy, N° 62, em Maio de 74. O destaque aqui fica para o artista Berni Wrightson em excelente performance (os enquadramentos maiores são magistrais). Estes quadrinhos da época da EC foram e são o supra-sumo do preto-e-branco, produções belíssimas e que quando aliadas a histórias de mestres da literatura com é o caso de Poe, são garantia de qualidade. Os scans foram retirado do blog http://caixadegibis.blogspot.com.br/, seguem os mesmos:














terça-feira, 18 de agosto de 2015

O Quarto 406 - Marco R. Oliveira

Abaixo segue outro conto de minha própria autoria.  Basicamente trata-se de uma história de fantasma, com passagens de terror e um pouco de suspense para prender a atenção do leitor. Tratei de ambientá-la dentro de um hospital para tentar trazer proximidade com a nossa realidade. Elaborei o conto para participar do Desafio do Terror do site Recanto das letras, que publica contos interessantíssimos de diversos escritores.  O conto fica como um tributo aos mestres das ghost stories, tais como M. R. James, Sheridan Le Fanu, Edith Wharton e muitos outros. 




O Quarto 406

Aconteceu à época de minha residência médica no Hospital Memorial C..., em Campinas. Aqueles foram bons tempos, nos quais alcancei muitas conquistas. A medicina proporcionou-me, como era esperado, satisfação plena de meus anseios profissionais. No entanto, grata foi a minha surpresa, ao perceber o quanto eu havia crescido também como pessoa, durante o aprendizado daquela bela profissão. É verdade que algumas lembranças estranhas, herança daqueles dias, continuam vivamente impressas em minha memória, e pensamentos obscuros ainda me atormentam quando tais recordações vêm à tona.
O Memorial C... era uma construção imponente, a entrada principal ficava recuada em relação à rua, cerca de quinze metros, ao longo de toda a sua fachada cinzenta. Toda essa lacuna, exceto a passagem central que conduzia à entrada e era ladeada por grades, era tomada por um jardim. Não muito alto, era composto por seis pavimentos, um dos quais era o térreo, contudo assentava-se sobre todo um quarteirão e sua planta, simples e quadrangular, aproveitava todos os espaços, sendo assim formidável a sua capacidade.
Eu já havia estagiado por muitas das especialidades que o Memorial atendia, e agora me deleitava em uma que já ocupava lugar de honra entre as minhas preferidas: A cirurgia. Assombrava-me a perícia que os médicos-cirurgiões demonstravam durante as operações, a precisão no corte, a incisão perfeita, os instrumentos afiadíssimos, a irrigação sanguínea do local afetado, e principalmente, o momento em que o paciente recobrava a consciência. É fato, logicamente, que nem todas terminavam de forma feliz, aliás, algumas já estavam fadadas ao fracasso desde o seu princípio.
Ainda me recordo de uma delas que me impressionou profundamente. Era um caso de aborto, porém como o estágio da gravidez já era avançado e o feto, após sua morte, não fora eliminado espontaneamente, deveria ser retirado.  Os instrumentos usados na ocasião pareceram-me brutos demais, eram enormes, as tesouras, as pinças. Os médicos retiravam os restos da criança aos pedaços, não saíra inteiro, era uma cena dantesca. Pensei em mim no lugar daquela mulher, não pude suportar e saí da sala. Durante vários dias permaneci angustiada, não imaginava que o milagre da vida poderia ser tornar algo tão pavoroso. Aquilo me abalou por muito tempo.
O quarto 406 era uma das salas onde os pacientes eram acomodados antes de irem para o centro cirúrgico e depois de voltarem dele. Ali o paciente se restabelecia durante o pós-operatório. Eu me familiarizara com aquela sala e sempre que estava vazia aproveitava para fazer minhas anotações ali. Muitas vezes depois de uma das “sessões”, como eu costumava chamar os trabalhos cirúrgicos, eu subia até o quarto para registrar detalhes específicos que houvessem ocorrido, pois algumas cirurgias eram muito peculiares e complexas, principalmente as relacionadas aos nervos.
Depois de um tempo a frequentar aquele quarto, algo começou a me incomodar. Era comum, quando eu estava ali sentada, sozinha, sentir um corrente de ar, como se fosse um vento frio a circular pelo ambiente, quase imperceptível. Essa situação, dada a frequência em que ocorria, desagradava-me bastante, de maneira que todas as vezes que ia usar a sala, antes fechava todas as janelas. O que parecia de nada adiantar.
Certa tarde um dos funcionários da manutenção veio ao quarto, estando eu presente, era um senhor, magríssimo, já avançado na idade, ao perceber-me disse:
- Desculpe doutora, não sabia que o quarto estava em uso...
- Não se preocupe, já estou de saída.
- Vim ver o que acontece com o ar condicionado, disseram que não está funcionando...
- Não costumo usá-lo, nem sabia que estava defeituoso. Aliás, nesta sala parece haver sempre um corrente de ar, sabe se existe alguma outra abertura que não seja as das janelas, senhor?
- Nunca ouvi falar, os quartos dessa ala são os mais bem vedados do hospital, também nunca senti vento nenhum aqui, doutora.
- Estranho, respondi, tenho certeza de que se dessem uma olhada melhor achariam alguma abertura escondida por onde o ar se infiltra.
- Pode deixar doutora, vou aproveitar e verificar todas as janelas.
- Obrigado e bom trabalho então!
- Até mais ver, doutora.
Algum tempo depois comentei sobre o quarto 406 com uma das enfermeiras mais velhas do hospital. Chamava-se Magda, era alta e corpulenta, e tinha o cabelo preto cortado bem curto. Seu rosto era redondo, macilento e dotado de um olhar perverso, muitas vezes observei que maltratava os pacientes idosos, movimentando-os bruscamente e também durante a medicação, principalmente nas aplicações intravenosas. Admirava-me que a administração do hospital ainda não a houvesse despedido, pois eram constantes as reclamações a seu respeito. Ao ouvir minhas impressões sobre o quarto 406 primeiro soltou um risinho misterioso, depois se aproximou de tal forma que senti seu hálito quente bafejar em meu rosto (era um cheiro horrível) e disse: “Vou lhe contar uma história, Laura, que ouvi a respeito daquele quarto, da qual tomei conhecimento através de uma das enfermeiras que presenciou o episódio ”. Fomos tomar um café e foi então que me contou o seguinte:
Há cerca de quatro anos atrás, trabalhava aqui conosco um médico, chamava-se Dr. Carlos e era um cirurgião geral ainda sem muita experiência. Muito orgulhoso de si mesmo, achava-se um profundo conhecedor dos mistérios da medicina, como é comportamento costumeiro dessa classe de açougueiros que ultimamente jorram em nosso país aos borbotões (assim dizendo encarou-me com um olhar severo, a megera). Dificilmente discutia sobre seus pacientes com os companheiros de trabalho e distribuía diagnósticos aos quatro ventos, muitos dos quais, se considerados por algum profissional de gabarito, sem dúvida seriam contestados.
Naquele tempo, em uma noite chuvosa, na qual o doutor Carlos estava de plantão, deu entrada no hospital uma paciente, que se encontrava em estado lastimável. Era uma moça nova, portadora de uma fratura exposta localizada na perna direita, das grandes. Duas enfermeiras entraram no quarto 406 empurrando a maca, a mulher urrava de dor, a coisa estava feia para ela. Carlos, após um exame rápido, dado o estrago na perna da mulher, concluiu que a paciente deveria ser preparada para a cirurgia imediatamente. As enfermeiras então imobilizaram o membro fraturado e, deixando a paciente aos seus cuidados, saíram da sala. O Doutor preparou uma seringa com uma dose de T..., um poderoso analgésico, que por vezes chegava a causar inconsciência. Aproximou-se da mulher com o medicamento em mãos ao que ela, gemendo de dor, disse:
- O que vai injetar em mim Doutor?
- Trata-se de um medicamento para aliviar sua dor, não se preocupe.
- Tudo bem doutor, mas o que é? Gostaria de saber...
- Fique calma, confie em mim, logo vai se sentir melhor.
E assim dizendo aplicou a medicação no braço da paciente, que estava imobilizada, imediatamente ela pareceu adormecer. O doutor, então, dirigiu-se ao centro cirúrgico para reservar uma das salas e dar início aos procedimentos pré-operatórios.
Ao voltar ao quarto, pouco depois, estranhou que a paciente ainda estivesse inconsciente e aproximou-se dela. Seu rosto estava muito pálido e as pupilas dilatadas, percebeu que algo ali estava errado. Tentou captar a respiração através de um espelho aplicado à boca, nada! Constatou também que não havia pulso. Um pensamento o fez estremecer. Agarrou o prontuário que estava preso à maca e leu as poucas linhas que este continha. Inútil dizer mais, ali estavam listados três medicamentos aos quais a paciente relatara já haver sofrido reações adversas em outras ocasiões. Todos os três tinham como componente base o mesmo do medicamento T... que o doutor lhe aplicara, a única diferença era quem em T... sua proporção era muito maior. Imediatamente lançou mão do telefone e alertou às enfermeiras de que tinham um quadro de parada cardiorrespiratória.
Em instantes o quarto estava povoado de jalecos brancos movimentando-se em profusão em torno da maca. Tentaram reanimá-la de todas as formas, ligaram-na a um sistema de respiração artificial e passaram a aplicar-lhe massagem cardíaca por alguns minutos, até perceberem que, não obtendo resposta, o entorno de seus olhos já começava a se arroxear. O doutor então mandou que preparassem o desfibrilador. Pediu espaço. Aplicou a primeira descarga. Nada. Aguardou a tensão estabilizar-se.  Separou bem as placas. Nova descarga, sem resposta. O monitor cardíaco há muito era apenas uma linha contínua, durante as duas descargas ondulou em um espectro sem padrão ou frequência, para, em seguida, voltar a emitir o seu bip imperturbável, constante, agourento. Uma terceira descarga, nenhuma chance, desligaram todos os equipamentos, exceto o monitor, os ruídos cessaram, o grupo se desfez, todos saíram, permaneceram apenas três naquela lúgubre sala, o doutor, a paciente e a morte.
- E então? Perguntei eu, ao perceber que Magda parecia ter encerrado sua narrativa.
- Acabou. Respondeu gravemente.
- E o doutor Carlos ficou impune? Não descobriram o que aconteceu? Ajuntei indignada.
- Na verdade, Laura, de certa forma, ele foi sim punido, mas de uma maneira que foge ao convencional. Na época, nenhuma pena lhe foi imputada, afirmaram que a parada cardiorrespiratória foi causada pela perda de sangue em excesso, e o falecimento fora inevitável. Assim, o diagnóstico oficial favoreceu o doutor, que escapou ileso, ou quase, por assim dizer, pois pouco tempo depois foi internado em um manicômio, onde permanece até hoje, e de onde acredito, nunca mais sairá.
- Por que diz isso? O que aconteceu? Perguntei.
- Porque, minha cara, a história tem um adendo sinistro, o qual o próprio doutor deixou escapar pouco tempo antes de enlouquecer, ele certamente já não deveria estar em seu perfeito juízo quando declarou essa sentença, mas ouça e julgue por si mesma:
Quando todos saíram do quarto 406, o doutor sentou-se numa das cadeiras e permaneceu absorto em seus pensamentos. Talvez estivesse a considerar o peso do fardo que seu erro jogara-lhe aos ombros, ou talvez, cego de espírito pela sua soberba, não considerasse, quem sabe?  Fato é que estando desta forma, um ruído chamou sua atenção. Olhou para a maca e viu que um dos braços da paciente havia resvalado e pendia suspenso ao lado do corpo. Inconscientemente se levantou para arrumar o cadáver. Quando estava prestes a tocar o braço da morta, esta foi mais rápida e o agarrou com força assustadora e ergueu lentamente o quadril, encarando o doutor. Seu rosto, dissera ele, era o próprio retrato da morte, em lugar dos olhos orbitavam dois espaços negros. Da sua boca saíram estas palavras:
- Vai pagar pelo que me fez, maldito! Cedo ou tarde! Assim jura minha alma!
E então soltou o doutor, que tombou para trás, e caiu inconsciente. Foi despertado horas depois, quando chegaram os funcionários responsáveis pela remoção da falecida. Um fato curioso, embora absurdo, em minha opinião, e que é conhecido apenas de amigos íntimos do doutor (amigos estes que, na minha opinião, além de íntimos, possuíam a imaginação deveras fértil), diz respeito a uma marca que ele portava. Em seu braço esquerdo, dizem, como se tivesse sido gravada a fogo, viam-se cinco dedos longos e finos em forma de uma mão. Eu, embora seja contemporânea dele, nunca vi esse marca e, obviamente, não creio que ele realmente a tenha. E agora, querida, você tem a história completa. E virou-me as costas, deixando-me com mil perguntas a fazer.
Confesso que não sou supersticiosa, nem tampouco me quedo a crer nesta visão convencional a respeito dos fantasmas, a qual sugere que essas criaturas possam vagar sobre a terra, impulsionadas por quaisquer que sejam seus insólitos propósitos. No entanto, esse meu sentimento não impediu que crescesse cada vez mais em mim uma aversão ao quarto 406, passei a usá-lo com menos frequência e, preferencialmente, enquanto a luz do dia ainda se filtrava pelas suas janelas. É que a noite já não me permitia um estado de concentração favorável para minhas anotações, sempre que ali permanecia após o crepúsculo, minha caligrafia tornava-se deplorável. Adquiri também um costume, provavelmente influenciada pelo que soube aconteceu naquela sala, de, após apagar a luz, antes de sair, virar-me e contemplar o seu interior. Estranhamente, a escuridão nunca era completa, parecia que habitava ali uma penumbra constante, uma aura sinistra. Com o tempo, percebi que este não era um hábito saudável e o abandonei.
Certo dia, estava eu a usar a sala e, compenetrada em meus afazeres, quando dei por mim, percebi que já anoitecera. A temperatura caíra bruscamente e eu não trazia blusa comigo, censurei-me por isso. Guardei meu caderno, livros e demais pertences e estava prestes a levantar, quando ouvi barulho de algo caindo no banheiro do quarto. Levantei e para lá me dirigi, ao abrir a porta uma lufada de ar frio atravessou-me os ossos em cheio, estremeci. Alguns itens higiênicos que estavam sobre a pia haviam caído e isso causara o barulho. Abaixe-me e passei a recolhê-los. Foi quando senti um sopro leve e gelado em minha nuca, todos os meus pequeninos pelos ali se eriçaram e o banheiro pareceu transformar-se, subitamente, num frigorífico.
Eu podia observar as baforadas de minha respiração suspensas no ar diante de mim. Virei-me. Deus! Não deveria tê-lo feito! Antes tivesse perdido o dom da visão! A aparição diante mim era espectral! O esboço de uma estrutura humana feminina, completamente translúcida! Era magríssima e em toda a sua extensão corria uma espécie de emaranhado de veias e artérias azuladas. Minha visão então repousou sobre o seu braço direito, o qual ela estendia em minha direção a ponto de quase me tocar. Ali aquela profusão de vasos sanguíneos era ainda mais intensa, centenas deles, se possível fosse contá-los. Foi então que vi algo que fez minha respiração estancar. Ali em seu braço, pendurada, balançando, suspensa apenas pela agulha, a horrenda forma de uma seringa ainda úmida de sangue! Com um grito abandonei aquele quarto e corri como nunca pelos corredores daquele maldito hospital, parando apenas quando me vi, já na rua, sem fôlego.
 Durante todo o restante de minha residência, que felizmente já se aproximava do fim, não mais entrei naquele quarto. Passado o terror do acontecido, ficou em mim um sentimento profundo de tristeza e amargor. Por vezes a melancolia tomava conta dos meus pensamentos e eu ficava, prostrada, a imaginar o martírio daquelas almas para além da morte, que prosseguiam acorrentadas a este mundo, sem descanso, atormentadas por não aceitarem o cruel e imerecido destino que tiveram em vida. Por fim, meus dias no Memorial C... findaram, e parti finalmente, pronta para exercer meu ofício.

***

                Alguns anos depois, eu já clinicava em meu consultório particular, quando uma amiga minha de Campinas, a visitar-me, trouxe-me uma triste notícia. O Hospital memorial C... fora desativado, o lugar agora tornara-se um prédio de escritórios. Não mudara muito externamente, segundo me disse, mas por dentro as salas foram completamente destruídas para dar lugar àquele conhecido inferno de baias e divisórias que delimitam áreas minúsculas, onde imperam uma mesa e um computador. Um sentimento de nostalgia depositou-se sobre mim, pois aquele fora, sem sombra de dúvidas, um excelente hospital.
Curiosamente, àquela mesma época, tive notícias do falecimento do doutor Carlos, em sua cela, no mesmo hospital psiquiátrico de outrora, onde continuava internado. Uns disseram que morrera asfixiado, outros que fora vítima de uma parada cardíaca. Eu de minha parte, prefiro não especular qual tenha sido a causa da sua morte. Quando o encontraram, da sua boca escorria um filete de sangue que encharcava a camisa de força, e alguns de seus dentes, talvez devido à medicação que tomava, ou por tê-los se submetido a algum esforço excessivo, estavam amolecidos. Dadas às circunstâncias do óbito, a perícia foi ao local, investigar, nada encontraram de notável, exceto uma seringa vazia, encontrada sob o cadáver do malfadado doutor. 

Marco Roberto de Oliveira

sábado, 15 de agosto de 2015

Edgar Allan Poe - O gato preto

 Abaixo segue um dos contos mais conhecidos e admirados de Poe "O gato preto". O mórbido está presente por todo conto e o final surpreendentemente vinga e pune o protagonista de forma requintada e assombrosa! 
Àqueles que conhecem o escritor façam um comparativo entre essa história e sua própria vida e digam se há alguma semelhança...
Segue o conto: 

O Gato Preto

Não espero nem peço que se dê crédito à história sumamente extraordinária e, no entanto, bastante doméstica que vou narrar. Louco seria eu se esperasse tal coisa, tratando-se de um caso que os meus próprios sentidos se negam a aceitar. Não obstante, não estou louco e, com toda a certeza, não sonho. Mas amanhã posso morrer e, por isso, gostaria, hoje, de aliviar o meu espírito. Meu propósito imediato é apresentar ao mundo, clara e sucintamente, mas sem comentários, uma série de simples acontecimentos domésticos. Devido a suas consequências, tais acontecimentos me aterrorizaram, torturaram e instruíram.

No entanto, não tentarei esclarecê-los. Em mim, quase não produziram outra coisa senão horror _ mas, em muitas pessoas, talvez lhes pareçam menos terríveis que grotesco. Talvez, mais tarde, haja alguma inteligência que reduza o meu fantasma a algo comum _ uma inteligência mais serena, mais lógica e muito menos excitável do que, a minha, que perceba, nas circunstâncias a que me refiro com terror, nada mais do que uma sucessão comum de causas e efeitos muito naturais.

Desde a infância, tomaram-se patentes a docilidade e o sentido humano de meu caráter. A ternura de meu coração era tão evidente, que me tomava alvo dos gracejos de meus companheiros. Gostava, especialmente, de animais, e meus pais me permitiam possuir grande variedade deles. Passava com eles quase todo o meu tempo, e jamais me sentia tão feliz como quando lhes dava de comer ou os acariciava. Com os anos, aumentou esta peculiaridade de meu caráter e, quando me tomei adulto, fiz dela uma das minhas principais fontes de prazer. Aos que já sentiram afeto por um cão fiel e sagaz, não preciso dar-me ao trabalho de explicar a natureza ou a intensidade da satisfação que se pode ter com isso. Há algo, no amor desinteressado, e capaz de sacrifícios, de um animal, que toca diretamente o coração daqueles que tiveram ocasiões freqüentes de comprovar a amizade mesquinha e a frágil fidelidade de um simples homem.

Casei cedo, e tive a sorte de encontrar em minha mulher disposição semelhante à minha. Notando o meu amor pelos animais domésticos, não perdia a oportunidade de arranjar as espécies mais agradáveis de bichos. Tínhamos pássaros, peixes dourados, um cão, coelhos, um macaquinho e um gato.

Este último era um animal extraordinariamente grande e belo, todo negro e de espantosa sagacidade. Ao referir-se à sua inteligência, minha mulher, que, no íntimo de seu coração, era um tanto supersticiosa, fazia freqüentes alusões à antiga crença popular de que todos os gatos pretos são feiticeiras disfarçadas. Não que ela se referisse seriamente a isso: menciono o fato apenas porque aconteceu lembrar-me disso neste momento.

Pluto _ assim se chamava o gato _ era o meu preferido, com o qual eu mais me distraía. Só eu o alimentava, e ele me seguia sempre pela casa. Tinha dificuldade, mesmo, em impedir que me acompanhasse pela rua.

Nossa amizade durou, desse modo, vários anos, durante os quais não só o meu caráter como o meu temperamento _ enrubesço ao confessá-lo _ sofreram, devido ao demônio da intemperança, uma modificação radical para pior. Tomava-me, dia a dia, mais taciturno, mais irritadiço, mais indiferente aos sentimentos dos outros. Sofria ao empregar linguagem desabrida ao dirigir-me à minha mulher. No fim, cheguei mesmo a tratá-la com violência. Meus animais, certamente, sentiam a mudança operada em meu caráter. Não apenas não lhes dava atenção alguma, como, ainda, os maltratava. Quanto a Pluto, porém, ainda despertava em mim consideração suficiente que me impedia de maltratá-lo, ao passo que não sentia escrúpulo algum em maltratar os coelhos, o macaco e mesmo o cão, quando, por acaso ou afeto, cruzavam em meu caminho. Meu mal, porém, ia tomando conta de mim _ que outro mal pode se comparar ao álcool? _ e, no fim, até Pluto, que começava agora a envelhecer e, por conseguinte, se tomara um tanto rabugento, até mesmo Pluto começou a sentir os efeitos de meu mau humor.

Certa noite, ao voltar a casa, muito embriagado, de uma de minhas andanças pela cidade, tive a impressão de que o gato evitava a minha presença. Apanhei-o, e ele, assustado ante a minha violência, me feriu a mão, levemente, com os dentes. Uma fúria demoníaca apoderou-se, instantaneamente, de mim. Já não sabia mais o que estava fazendo. Dir-se-ia que, súbito, minha alma abandonara o corpo, e uma perversidade mais do que diabólica, causada pela genebra, fez vibrar todas as fibras de meu ser.Tirei do bolso um canivete, abri-o, agarrei o pobre animal pela garganta e, friamente, arranquei de sua órbita um dos olhos! Enrubesço, estremeço, abraso-me de vergonha, ao referir-me, aqui, a essa abominável atrocidade.

Quando, com a chegada da manhã, voltei à razão _ dissipados já os vapores de minha orgia noturna, experimentei, pelo crime que praticara, um sentimento que era um misto de horror e remorso; mas não passou de um sentimento superficial e equívoco, pois minha alma permaneceu impassível. Mergulhei novamente em excessos, afogando logo no vinho a lembrança do que acontecera.

Entrementes, o gato se restabeleceu, lentamente. A órbita do olho perdido apresentava, é certo, um aspecto horrendo, mas não parecia mais sofrer qualquer dor. Passeava pela casa como de costume, mas, como bem se poderia esperar, fugia, tomado de extremo terror, à minha aproximação. Restava-me ainda o bastante de meu antigo coração para que, a princípio, sofresse com aquela evidente aversão por parte de um animal que, antes, me amara tanto. Mas esse sentimento logo se transformou em irritação. E, então, como para perder-me final e irremissivelmente, surgiu o espírito da perversidade. Desse espírito, a filosofia não toma conhecimento. Não obstante, tão certo como existe minha alma, creio que a perversidade é um dos impulsos primitivos do coração humano – uma das faculdades, ou sentimentos primários, que dirigem o caráter do homem. Quem não se viu, centenas de vezes, a cometer ações vis ou estúpidas, pela única razão de que sabia que não devia cometê-las? Acaso não sentimos uma inclinação constante mesmo quando estamos no melhor do nosso juízo, para violar aquilo que é lei, simplesmente porque a compreendemos como tal? Esse espírito de perversidade, digo eu, foi a causa de minha queda final. O vivo e insondável desejo da alma de atormentar-se a si mesma, de violentar sua própria natureza, de fazer o mal pelo próprio mal, foi o que me levou a continuar e, afinal, a levar a cabo o suplício que infligira ao inofensivo animal. Uma manhã, a sangue frio, meti- lhe um nó corredio em torno do pescoço e enforquei-o no galho de uma árvore. Fi-lo com os olhos cheios de lágrimas, com o coração transbordante do mais amargo remorso. Enforquei-o porque sabia que ele me amara, e porque reconhecia que não me dera motivo algum para que me voltasse contra ele. Enforquei-o porque sabia que estava cometendo um pecado _ um pecado mortal que comprometia a minha alma imortal, afastando-a, se é que isso era possível, da misericórdia infinita de um Deus infinitamente misericordioso e infinitamente terrível.

Na noite do dia em que foi cometida essa ação tão cruel, fui despertado pelo grito de “fogo!”. As cortinas de minha cama estavam em chamas. Toda a casa ardia. Foi com grande dificuldade que minha mulher, uma criada e eu conseguimos escapar do incêndio. A destruição foi completa. Todos os meus bens terrenos foram tragados pelo fogo, e, desde então, me entreguei ao desespero.

Não pretendo estabelecer relação alguma entre causa e efeito – entre o desastre e a atrocidade por mim cometida. Mas estou descrevendo uma seqüência de fatos, e não desejo omitir nenhum dos elos dessa cadeia de acontecimentos. No dia seguinte ao do incêndio, visitei as ruínas. As paredes, com exceção de uma apenas, tinham desmoronado. Essa única exceção era constituída por um fino tabique interior, situado no meio da casa, junto ao qual se achava a cabeceira de minha cama. O reboco havia, aí, em grande parte, resistido à ação do fogo _ coisa que atribuí ao fato de ter sido ele construído recentemente. Densa multidão se reunira em torno dessa parede, e muitas pessoas examinavam, com particular atenção e minuciosidade, uma parte dela, As palavras “estranho!”, “singular!”, bem como outras expressões semelhantes, despertaram-me a curiosidade. Aproximei- me e vi, como se gravada em baixo-relevo sobre a superfície branca, a figura de um gato gigantesco. A imagem era de uma exatidão verdadeiramente maravilhosa. Havia uma corda em tomo do pescoço do animal.


Logo que vi tal aparição, pois não poderia considerar aquilo como sendo outra coisa, o assombro e terror que se me apoderaram foram extremos. Mas, finalmente, a reflexão veio em meu auxílio. O gato, lembrei-me, fora enforcado num jardim existente junto à casa. Aos gritos de alarma, o jardim fora imediatamente invadido pela multidão. Alguém deve ter retirado o animal da árvore, lançando- o, através de uma janela aberta, para dentro do meu quarto. Isso foi feito, provavelmente, com a intenção de despertar-me. A queda das outras paredes havia comprimido a vítima de minha crueldade no gesso recentemente colocado sobre a parede que permanecera de pé. A cal do muro, com as chamas e o amoníaco desprendido da carcaça, produzira a imagem tal qual eu agora a via.

Embora isso satisfizesse prontamente minha razão, não conseguia fazer o mesmo, de maneira completa, com minha consciência, pois o surpreendente fato que acabo de descrever não deixou de causar-me, apesar de tudo, profunda impressão. Durante meses, não pude livrar-me do fantasma do gato e, nesse espaço de tempo, nasceu em meu espírito uma espécie de sentimento que parecia remorso, embora não o fosse. Cheguei, mesmo, a lamentar a perda do animal e a procurar, nos sórdidos lugares que então freqüentava, outro bichano da mesma espécie e de aparência semelhante que pudesse substituí-lo.

Uma noite, em que me achava sentado, meio aturdido, num antro mais do que infame, tive a atenção despertada, subitamente, por um objeto negro que jazia no alto de um dos enormes barris, de genebra ou rum, que constituíam quase que o único mobiliário do recinto. Fazia já alguns minutos que olhava fixamente o alto do barril, e o que então me surpreendeu foi não ter visto antes o que havia sobre o mesmo. Aproximei-me e toquei-o com a mão. Era um gato preto, enorme _ tão grande quanto Pluto _ e que, sob todos os aspectos, salvo um, se assemelhava a ele. Pluto não tinha um único pêlo branco em todo o corpo _ e o bichano que ali estava possuía uma mancha larga e branca, embora de forma indefinida, a cobrir-lhe quase toda a região do peito.

Ao acariciar-lhe o dorso, ergueu-se imediatamente, ronronando com força e esfregando-se em minha mão, como se a minha atenção lhe causasse prazer. Era, pois, o animal que eu procurava. Apressei-me em propor ao dono a sua aquisição, mas este não manifestou interesse algum pelo felino. Não o conhecia; jamais o vira antes.

Continuei a acariciá-lo e, quando me dispunha a voltar para casa, o animal demonstrou disposição de acompanhar-me. Permiti que o fizesse _ detendo-me, de vez em quando, no caminho, para acariciá-lo. Ao chegar, sentiu-se imediatamente à vontade, como se pertencesse a casa, tomando- se, logo, um dos bichanos preferidos de minha mulher.

De minha parte, passei a sentir logo aversão por ele. Acontecia, pois, justamente o contrário do que eu esperava. Mas a verdade é que – não sei como nem por quê _ seu evidente amor por mim me desgostava e aborrecia. Lentamente, tais sentimentos de desgosto e fastio se converteram no mais amargo ódio. Evitava o animal. Uma sensação de vergonha, bem como a lembrança da crueldade que praticara, impediam-me de maltratá-lo fisicamente. Durante algumas semanas, não lhe bati nem pratiquei contra ele qualquer violência; mas, aos poucos – muito gradativamente _ , passei a sentir por ele inenarrável horror, fugindo, em silêncio, de sua odiosa presença, como se fugisse de uma peste.

Sem dúvida, o que aumentou o meu horror pelo animal foi a descoberta, na manhã do dia seguinte ao que o levei para casa, que, como Pluto, também havia sido privado de um dos olhos. Tal circunstância, porém, apenas contribuiu para que minha mulher sentisse por ele maior carinho, pois, como já disse, era dotada, em alto grau, dessa ternura de sentimentos que constituíra, em outros tempos, um de meus traços principais, bem como fonte de muitos de meus prazeres mais simples e puros.

No entanto, a preferência que o animal demonstrava pela minha pessoa parecia aumentar em razão direta da aversão que sentia por ele. Seguia-me os passos com uma pertinácia que dificilmente poderia fazer com que o leitor compreendesse. Sempre que me sentava, enrodilhava- se embaixo de minha cadeira, ou me saltava ao colo, cobrindo-me com suas odiosas carícias. Se me levantava para andar, metia-se-me entre as pernas e quase me derrubava, ou então, cravando suas longas e afiadas garras em minha roupa, subia por ela até o meu peito. Nessas ocasiões, embora tivesse ímpetos de matá-lo de um golpe, abstinha-me de fazê-lo devido, em parte, à lembrança de meu crime anterior, mas, sobretudo _ apresso-me a confessá-lo _ , pelo pavor extremo que o animal me despertava.

Esse pavor não era exatamente um pavor de mal físico e, contudo, não saberia defini-lo de outra maneira. Quase me envergonha confessar _ sim, mesmo nesta cela de criminoso _ , quase me envergonha confessar que o terror e o pânico que o animal me inspirava eram aumentados por uma das mais puras fantasias que se possa imaginar. Minha mulher, mais de uma vez, me chamara a atenção para o aspecto da mancha branca a que já me referi, e que constituía a única diferença visível entre aquele estranho animal e o outro, que eu enforcara. O leitor, decerto, se lembrará de que aquele sinal, embora grande, tinha, a princípio, uma forma bastante indefinida. Mas, lentamente, de maneira quase imperceptível _ que a minha imaginação, durante muito tempo, lutou por rejeitar como fantasiosa _, adquirira, por fim, uma nitidez rigorosa de contornos. Era, agora, a imagem de um objeto cuja menção me faz tremer… E, sobretudo por isso, eu o encarava como a um monstro de horror e repugnância, do qual eu, se tivesse coragem, me teria livrado. Era agora, confesso, a imagem de uma coisa odiosa, abominável: a imagem da forca! Oh, lúgubre e terrível máquina de horror e de crime, de agonia e de morte!

Na verdade, naquele momento eu era um miserável _ um ser que ia além da própria miséria da humanidade. Era uma besta-fera, cujo irmão fora por mim desdenhosamente destruído… uma besta- fera que se engendrara em mim, homem feito à imagem do Deus Altíssimo. Oh, grande e insuportável infortúnio! Ai de mim! Nem de dia, nem de noite, conheceria jamais a bênção do descanso! Durante o dia, o animal não me deixava a sós um único momento; e, à noite, despertava de hora em hora, tomado do indescritível terror de sentir o hálito quente da coisa sobre o meu rosto, e o seu enorme peso _ encarnação de um pesadelo que não podia afastar de mim _ pousado eternamente sobre o meu coração!

Sob a pressão de tais tormentos, sucumbiu o pouco que restava em mim de bom. Pensamentos maus converteram-se em meus únicos companheiros _ os mais sombrios e os mais perversos dos pensamentos. Minha rabugice habitual se transformou em ódio por todas as coisas e por toda a humanidade _ e enquanto eu, agora, me entregava cegamente a súbitos, freqüentes e irreprimíveis acessos de cólera, minha mulher – pobre dela! – não se queixava nunca convertendo-se na mais paciente e sofredora das vítimas.

Um dia, acompanhou-me, para ajudar-me numa das tarefas domésticas, até o porão do velho edifício em que nossa pobreza nos obrigava a morar, O gato seguiu-nos e, quase fazendo-me rolar escada abaixo, me exasperou a ponto de perder o juízo. Apanhando uma machadinha e esquecendo o terror pueril que até então contivera minha mão, dirigi ao animal um golpe que teria sido mortal, se atingisse o alvo. Mas minha mulher segurou-me o braço, detendo o golpe. Tomado, então, de fúria demoníaca, livrei o braço do obstáculo que o detinha e cravei-lhe a machadinha no cérebro. Minha mulher caiu morta instantaneamente, sem lançar um gemido.

Realizado o terrível assassínio, procurei, movido por súbita resolução, esconder o corpo. Sabia que não poderia retirá-lo da casa, nem de dia nem de noite, sem correr o risco de ser visto pelos vizinhos.

Ocorreram-me vários planos. Pensei, por um instante, em cortar o corpo em pequenos pedaços e destruí-los por meio do fogo. Resolvi, depois, cavar uma fossa no chão da adega. Em seguida, pensei em atirá-lo ao poço do quintal. Mudei de idéia e decidi metê-lo num caixote, como se fosse uma mercadoria, na forma habitual, fazendo com que um carregador o retirasse da casa. Finalmente, tive uma idéia que me pareceu muito mais prática: resolvi emparedá-lo na adega, como faziam os monges da Idade Média com as suas vítimas.

Aquela adega se prestava muito bem para tal propósito. As paredes não haviam sido construídas com muito cuidado e, pouco antes, haviam sido cobertas, em toda a sua extensão, com um reboco que a umidade impedira de endurecer. Ademais, havia uma saliência numa das paredes, produzida por alguma chaminé ou lareira, que fora tapada para que se assemelhasse ao resto da adega. Não duvidei de que poderia facilmente retirar os tijolos naquele lugar, introduzir o corpo e recolocá-los do mesmo modo, sem que nenhum olhar pudesse descobrir nada que despertasse suspeita.

E não me enganei em meus cálculos. Por meio de uma alavanca, desloquei facilmente os tijolos e tendo depositado o corpo, com cuidado, de encontro à parede interior. Segurei-o nessa posição, até poder recolocar, sem grande esforço, os tijolos em seu lugar, tal como estavam anteriormente. Arranjei cimento, cal e areia e, com toda a precaução possível, preparei uma argamassa que não se podia distinguir da anterior, cobrindo com ela, escrupulosamente, a nova parede. Ao terminar, senti-me satisfeito, pois tudo correra bem. A parede não apresentava o menor sinal de ter sido rebocada. Limpei o chão com o maior cuidado e, lançando o olhar em tomo, disse, de mim para comigo: “Pelo menos aqui, o meu trabalho não foi em vão”.

O passo seguinte foi procurar o animal que havia sido a causa de tão grande desgraça, pois resolvera, finalmente, matá-lo. Se, naquele momento, tivesse podido encontrá-lo, não haveria dúvida quanto à sua sorte: mas parece que o esperto animal se alarmara ante a violência de minha cólera, e procurava não aparecer diante de mim enquanto me encontrasse naquele estado de espírito. Impossível descrever ou imaginar o profundo e abençoado alívio que me causava a ausência de tão detestável felino. Não apareceu também durante a noite _ e, assim, pela primeira vez, desde sua entrada em casa, consegui dormir tranqüila e profundamente. Sim, dormi mesmo com o peso daquele assassínio sobre a minha alma.

Transcorreram o segundo e o terceiro dia _ e o meu algoz não apareceu. Pude respirar, novamente, como homem livre. O monstro, aterrorizado fugira para sempre de casa. Não tomaria a vê-lo! Minha felicidade era infinita! A culpa de minha tenebrosa ação pouco me inquietava. Foram feitas algumas investigações, mas respondi prontamente a todas as perguntas. Procedeu-se, também, a uma vistoria em minha casa, mas, naturalmente, nada podia ser descoberto. Eu considerava já como coisa certa a minha felicidade futura.

No quarto dia após o assassinato, uma caravana policial chegou, inesperadamente, a casa, e realizou, de novo, rigorosa investigação. Seguro, no entanto, de que ninguém descobriria jamais o lugar em que eu ocultara o cadáver, não experimentei a menor perturbação. Os policiais pediram- me que os acompanhasse em sua busca. Não deixaram de esquadrinhar um canto sequer da casa. Por fim, pela terceira ou quarta vez, desceram novamente ao porão. Não me alterei o mínimo que fosse. Meu coração batia calmamente, como o de um inocente. Andei por todo o porão, de ponta a ponta. Com os braços cruzados sobre o peito, caminhava, calmamente, de um lado para outro. A polícia estava inteiramente satisfeita e preparava-se para sair. O júbilo que me inundava o coração era forte demais para que pudesse contê-lo. Ardia de desejo de dizer uma palavra, uma única palavra, à guisa de triunfo, e também para tomar duplamente evidente a minha inocência.

_ Senhores _ disse, por fim, quando os policiais já subiam a escada _ , é para mim motivo de grande satisfação haver desfeito qualquer suspeita. Desejo a todos os senhores ótima saúde e um pouco mais de cortesia. Diga-se de passagem, senhores, que esta é uma casa muito bem construída… (Quase não sabia o que dizia, em meu insopitável desejo de falar com naturalidade.) Poderia, mesmo, dizer que é uma casa excelentemente construída. Estas paredes _ os senhores já se vão? _ , estas paredes são de grande solidez.
Nessa altura, movido por pura e frenética fanfarronada, bati com força, com a bengala que tinha na mão, justamente na parte da parede atrás da qual se achava o corpo da esposa de meu coração.

Que Deus me guarde e livre das garras de Satanás! Mal o eco das batidas mergulhou no silêncio, uma voz me respondeu do fundo da tumba, primeiro com um choro entrecortado e abafado, como os soluços de uma criança; depois, de repente, com um grito prolongado, estridente, contínuo, completamente anormal e inumano. Um uivo, um grito agudo, metade de horror, metade de triunfo, como somente poderia ter surgido do inferno, da garganta dos condenados, em sua agonia, e dos demônios exultantes com a sua condenação.

Quanto aos meus pensamentos, é loucura falar. Sentindo-me desfalecer, cambaleei até à parede oposta. Durante um instante, o grupo de policiais deteve-se na escada, imobilizado pelo terror. Decorrido um momento, doze braços vigorosos atacaram a parede, que caiu por terra. O cadáver, já em adiantado estado de decomposição, e coberto de sangue coagulado, apareceu, ereto, aos olhos dos presentes.

Sobre sua cabeça, com a boca vermelha dilatada e o único olho chamejante, achava-se pousado o animal odioso, cuja astúcia me levou ao assassínio e cuja voz reveladora me entregava ao carrasco. Eu havia emparedado o monstro dentro da tumba!

Edgar Allan Poe - o poço e o pêndulo - Adaptação aos quadrinhos

Aqui temos uma adaptação quadrinística de um dos contos de POE, a saber "O poço e o pêndulo"!!!
Esta foi publicada no ano de 1952 na revista Nightmare N°2 (sim aquelas belíssimas publicações de horror dos anos 50 e 60 iniciadas com a pioneira EC - Entertaining Comics e depois revividas através de Creepy, Eerie, etc.).
A arte é de Everett Raymond Kinstler e o crédito das scans é do excelente blog norte-americano http://thehorrorsofitall.blogspot.com.br/.
Aos amantes do quadrinhos fica aqui este pequeno deleite baseado na obra daquele imortal mestre do conto de horror, sem mais delongas seguem os scans: